segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um dia que entrou na história


Hi!

Estas duas semanas últimas semanas foram repletas de emoções e muito trabalho.


A posse do Obama estava chegando e o hotel começou a lotar. Aos poucos vários boatos surgiram de que várias pessoas iam ficar no hotel. Eu estava torcendo pro Tom Hanks ou pra Shakira, mas os confirmados eram a família do Obama e o Nelson Mandela. Na segunda, dia 19 um baile de despedida com o Bush também agitou o hotel. Limpamos vários quartos com chepéus e coisas do Texas estes dias. O serviço secreto não tão secreto instalou aqueles detectores de metais no dia e todo mundo foi revistado. Não dava pra levar cameras nem nada desse tipo.
Uma amiga limpou um dos quartos da família do Obama, que devia ser uma tia-avó ou algo assim e o papel higienico tinha a logo da casa branca. Ela ficou chocada e chamou um monte de gente pra ver. Imagina que chique se limpar com a logo da casa branca?



Nisso, o pessoal do Gaylord endoidou. Em uma semana passamos a fazer de 8 quartos por dupla para 16 quartos sozinhos. Só agora estou começando a conseguir terminar os quartos no horário.



Nossos calendários de trabalho saem todos os domingos e até o dia 18, a gente tinha certeza que não ia dar certo de ir pra posse do Obama, porque nas semanas anteriores a gente tinha trabalhado nas terças e porque a gente achava que nesses dias o hotel ia precisar muito da gente. Mas foi engano nosso pois recebemos folga geral no dia 20!



A gente sabia que ia estar uma bagunça total. A gente sabia que ia ter que acordar cedo por causa disso. E a gente sabia que podia morrer (o jornal do dia estava com uma manchete tipo "5 ameaças terroristas esquentam o primeiro dia de Obama), mas a gente simplesmente tinha que ir. A nossa folga no dia era certamente o maior sinal disso.



Então, no dia seguinte saímos as 8 meninas loucas do housing em um frio congelante às 7 da manhã para o metro. O bom é que nossa estação é a primeira, então só pegamos o trem lotado e não o entupido de gente que não cabia mais nenhum dedo, que foi o que chegou na estação perto do capitólio. Pra sair da estação levamos quase uma hora, mas o espírito de posse já estava lá. Fomos treinando nossos gritinhos de guerra pro Obama, vendo a agitação, as pessoas felizes e sorridentes.



Quando saímos fomos andando para o capitólio, não estava mais tão apertado, mas eram muitas pessoas por todos os lados... Então entramos numa fila que parecia dar em algum lugar mais perto. Mas eram as pessoas que tinham ingressos e tivemos que voltar. Lutamos por vários pedacinhos de terra que fossem um pouquinho mais altos pra poder ver os telões, mas era difícil. Eu até subi num poste, mas de 5 em 5 minutos eu cansava.
Nesse meio tempo, tentamos entrar na fila que parecia dar em algum lugar de novo e eu nem sei porque, mas novamente mandaram a gente voltar pra mesmo lugar. Foi então que passou do nosso lado um carro com o perdedor McCain. A gente até tentou tirar fotos e sair correndo atrás, mas não deu tempo. Só ficamos no grito mesmo.





Vimos a Aretha Franklin, o coral dos meninos de São Francisco e a chegada de carro do Obama, mas ainda não estávamos satisfeitas com as nossas posições. Depois de um tempo rodando pela multidão vimos um pessoal pulando uma grade que dava pra uma muretinha do museu do índio americano, onde realmente tinha uns indios tocando uns tambores não sei porque... Acho que eles queriam chamar a atenção, quem sabe o próximo presidente não é descendente de índio? O espírito de brasileiro não desisto nunca se apossou e lá fomos nós pular a cerca proibida.



O lugar era perfeito, dava pra ver dois telões e toda a multidão, mas nossa alegria não durou muito. Em meia hora a polícia já estava espantando o pessoal de lá. O bom é que a gente tinha duas bandeiras do Brasil com a gente, caso a polícia tivesse dúvida pra onde deportar aquele bando de violadoras da lei. Mas não falaram nada pra gente, só que a gente tinha que sair dali. Em meio dos gritos de "Yes, we can!" eu só pensava que eu no nosso caso a gente não podia nada.



Começaram alguns discursos de pessoas que devem ser importantes mas eu não fazia idéia de quem eram. A gente ficava na pontinha do pé o tempo todo, pensando que nossa participação na história seria seriamente inibida por aqueles 2 milhoes de pessoas que cercavam a gente. E então, do nada, os portões que estavam bloqueando a entrada para as pessoas com ingresso se abrem e começa a todo mundo ir pra lá. Maior correria, a Stella levou maior tombo, mas chegamos vivas para poder gritar quando chamaram o Obama e pra ouvir o discurso.



Foi bonito. As pessoas choravam e faziam shhh quando ouviam outras pessoas conversando ou a gente rindo do tombo da Stella. Eu e a Babi tentamos nos infiltrar na multidão pra ficar mais pra frente, mas não deu muito certo. Então paramos em um lugar que dava pra ver o telão.





Estávamos assistindo a história naquele momento.
Eu posso falar pros meus filhos que eu estava lá quando eles estudarem isso em livros de história que vão ser mais longos que o meu.
Eu posso dizer que estava frio demais.
Eu posso dizer "yes, i was there".
Eu fui uma figurante, mas foi muito emocionante. (olha, rimou.)



Só espero que ele melhore um pouco a situação agora. Pior que o Bush é complicado alguém ser...



Depois a galera começou a se dispersar e nós fomos para o lago congelado que tem na frente do capitólio. Tava todo mundo subindo no lago congelado! E é claro que eu também ia. Mas quando eu olho pra trás, não vejo mais ninguém das brasileiras. Ótimo. Posso dizer que não é aconselhável se perder de seus amigos no meio de 2 milhões de pessoas. Você pode não encontrá-las.



Eu não encontrei. Então resolvi ir para o cemitério de Arlington, que era um lugar que eu queria ir, onde estão enterradas mais de 300 mil pessoas. Foi um dia de multidões, de vivos e de falecidos. Foi triste, mas era um lugar muito bonito e tranquilo. John Kennedy e outros presidentes estão enterrados lá.




Depois voltei pra casa, muito cansada mas muito feliz.
No hotel peguei todos os jornais do dia 20.

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